Depois da candidatura de Marcos Freire, PMDB, ao governo de Pernambuco, esta semana circulou intensamente, aqui e aí no Sul, que Gustavo Krause, PDS, 35 anos, prefeito do Recife, seria o candidato de Marco Maciel. Provavelmente não poderá ser. Ainda não é. Maciel, cauteloso, não decidirá antes do pacote eleitoral. O fato porém é que Krause está incomodando muita gente. Do governo e da oposição.

Por um lado, apesar de indicado prefeito por Maciel, Krause é do grupo de Moura Cavalcanti, de quem é sobrinho. Foi indicado porque na época, do PDS, o principal concorrente de Maciel era Nilo Coelho. Agora é Moura. Assim, Krause se transformou num acidente de percurso. No percurso de Maciel. Por outro, Krause tem peculiar receita para administrar. Uma espécie de neopopullismo, assistencialista e municipalista, que invade os redutos populares da oposição. A receita é a seguinte: enquanto a maioria dos políticos, de governo e oposição, troca fogo em torno de temas político-institucionais (pacote eleitoral, fusão de partidos, Constituinte etc.), Krause atira para outro lado. Cria cooperativas de docelras e costureiras. Constitui conselhos de moradores em cada esquina. Pressiona Brasília para ceder terras federais às populações marginalizadas. Mete o malho no Senado. Na pauta do Senado está um pedido para a Prefeitura se endividar no exterior. Cada ria obstruido, as obras atrasam, os votos ficam mais longe. Acresçam a esta receita um discurso de “esquerda”.

Nos debates promovidos pelos profissio-
nais liberais da classe média, Krause defen-
de e ataca com discurso de “esquerda”. Paradoxalmente incorpora à retórica oficial a denúncia da miséria das massas populares. Sinceridade ou não, rouba às oposições uma das melhores armas. Donde, para combater o prefeito, das duas uma. A ficar no nível do discurso, o combate se transforma numa paralisante tertúlia ideológica. Quando se parte para a ação nas bases, a coisa se complica. O prefeito dispõe de verbas. A oposição, não. Mais ainda: a oposição partidária está ocupada com a estruturação de seus partidos. O prefeito avança. Já se disse que a diferença entre a direita e a esquerda é que enquanto a esquerda administra o futuro, a direita administra o presente. Só em ruas asfaltadas com auxílio popular, Krause conta com mais de duzentas. Fora centenas de escadarias e bicas nos morros.

Resulta que, a nível popular, a Igreja é o grande obstáculo urbano às pretensões do prefeito. O discurso da fé ainda não foi apropriado. A ação das Comunidades de Base e a defesa da população contra a violência fazem da Igreja presença popular incólume. Sobretudo porque não confunde prática católico-comunitária com política partidária. Allás, desculpem, minto. A infração é outro obstáculo às pretensões de Krause. Quer dizer, este atual combate à infração torna muito difícil descomprometer a nível municipal as decisões antipopulares tomadas ao nível federal.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 21/06/1981_