Tudo indica que, daqui para a frente, o problema do Nordeste ocupará mais e mais espaço no debate nacional. Por duas razões principais. Primeiro porque para o governo manter sua posição no Congresso que elegerá o próximo presidente da República val precisar fortemente do voto do nordestino. Depois, porque previsões pessimistas indicam umaseca intermitente por ainda bom par de anos. Acarretando doloroso problema social. Do econômico, nem se fala. Esta semana realizou-se por aqui o Fórum Nordeste, liderado pelo Centro Josué de Castro e com o apoio do Cinpq. Os debates deram bem o tom do problema. O deputado Paulo Lustosa, do PDS-CE, por exemplo, acredita impossível o Nordeste pular o fosso que o separa do Sul e Centro-Sul. Não adianta o Nordeste querer ser São Paulo. Nunca vai ter o mesmo ritmo de crescimento. Nunca vai ter a mesma renda per cáplta. Nunca vai ter o mesmo padrão de consumo. Val chegar sempre depois da festa terminada. A saída seria então praticar-se um novo tipo de desenvolvimento econômico e social. Mais adequado às nossas possibilidades e limites, inclusive geofísicos.

Já o professor de economia da UNB Cristóvão Buarque acredita muito dificil o Nordeste praticar por si só uma política de desenvolvimento que lhe seja própria e específica. É que a atual política, se não satisfaz o Nordeste, pelo menos beneficia outros setores da Nação. Quer dizer: assim como os países desenvolvidos retiram vantagens do atraso dos países subdesenvolvidos, assim também Sui e Centro-Sui retiram vantagens do atraso do Nordeste. Por exemplo: o balanço de pagamentos do Nordeste não seria deficitário se considerado isoladamente.

Não se teria uma dívida externa nordestina. Mais ainda: um desenvolvimento industrial voltado para a exportação, pouco adianta à região. É que o resultado obtido via exportação, vai para o bolo geral da Nação. E quando repartem este bolo, a no Sul, repartem de forma desigual. O Nordeste recebe menos. A partir da, Buarque acredita que a reformulação da política de desenvolvimento do Nordeste passa necessariamente pela reformulação do modelo econômico nacional. O modelo de hoje tenderá sempre a desenvolver o Páis de forma desigual. Em outras palavras, Sul e Centro-Sul seriam os imperialistas, e o Nordeste a colônia.

À la questão Nordeste se complica. Por um lado não somos irlandeses ou bascos para lutar por um estatuto “separatista”. Por outro, o Nordeste não tem força econômica suficiente para poder, tal qual um árabe, forçar uma revisão do modelo econômico nacional desigual. A saída é mesmo a força político-eleitoral do voto nordestino.

Não é à-toa que governo e oposição escolheram nordestinos para seus líderes no Senado: Nilo Coelho e Marcos Freire. Atualmente o voto do nordestino pode desempatar o jogo a favor do governo ou da oposição. A questão do desenvolvimento desigual do Nordeste deverá ser um dos principais temas das campanhas eleitorais. A necessidade de políticos independentes do poder central, do eixo Rio-São Paulo-Brasília, poderá favorecer o voto na oposição. O Nordeste está ficando quente.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 31/05/1981_