Políticos do governo e da oposição uniram-se não apenas para apoiar o presidente Figueiredo. Uniram-se para se apolarem a si próprios também. E que os atentados terroristas têm diversos alvos. Um é o Presidente e a abertura. Outro é a classe política, sobretudo vereadores, deputados e senadores. Todos estão no mesmo barco.

Se o regime fecha, os políticos saem de cena. Pela repressão, pela cassação ou simplesmente por não terém o que fazer. Sejam eles do governo ou da oposição. Em regime autoritário, político é ao mesmo tempo ameaça ao poder e seu melhor bode explatório. Ao contrário, se o regime abre, a abertura avança, o espaço para os políticos aumenta. Sobretudo para os eleitos pelo voto popular. Neste caminho, surge um desafio: saber se os políticos vão saber fazer a política que interessa à Nação, ou não. A resposta é incerta. Os riscos são grandes.

Para que a abertura restaure a dignidade da política, os políticos não podem agir como se ainda estivessem no passado autoritário. Onde ser político era menos uma escolha popular do que um favor do príncipe. Onde se troca o compromisso com o povo pelas efêmeras e mutantes fidelidades palacianas. Nem podem deixar voltar o fantasma que historicamente ronda nossos políticos: o fantasma do personalismo, da incompetência e, de quando ém vez, da corrupção. Estes riscos a evitar já os percebeu o senador Nilo Coelho. Em pouco tempo de liderança do governo, engatilhou uma série de gestos que lhe granielam respeito. Para aceitar um car
go de longa fila de pretendentes, colocou exigência: tratamento prioritário por parte do Executivo para o Nordeste. No episódio de Marcos Freire, logo percebeu que os atingidos eram o Senado e a classe política. No episódio da bomba do Riocentro, aglu com desassombro pouco comum.

Com este seu estilo de fazer política, o serador deixa claro que se pode participar do governo e nele ser independente. Não é um estilo quixotesco. Ao contrário, é realista. O senador tem atrás de si 300 mil votos que lhe foram dados. Mais ainda, pretenda-o ou não, é forte candidato ao governo de Pernambuco. Por eleições diretas.

Seus gestos têm consequências concretas em Pernambuco. Por um lado ocupa espaços antes exclusivos da oposição. Rouba-lhe votos. Por outro, acentua, a nível local, a divisão interna do poder federal.

Aliás, sempre que o Pals se depara com uma situação de poder dividido, em cima do muro fica cheio de gente. Matutando os acontecimentos para pular do lado certo. O senador Nilo Coelho não está em cima do muro. Está do lado do Presidente, da abertura democrática e, paradoxalmente, do lado da sobrevivência da oposição. Condição indispensável para a sobrevivência de todos da classe política.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 10/05/1981_