Para as ambições políticas do governo e da oposição, não são apenas os resultados do combate à inflação e ao desemprego que contam. Conta também a maneira como este combate é travado. A maneira como o governo toma suas decisões. Tomar medidas certas de maneira errada não apenas dificulta o sucesso. Muita vez provoca tal insegurança e descrença que acaba por inviabilizar todo o combate. É faca de dois gumes.

Restaurar os subsídios à exportação, por exemplo, pode ser decisão economicamente correta. Evitaria à maxidevalorização do cruzeiro. Estimularia a exportação. Manteria o nível de produção e de emprego no setor. Mas ela não conta apenas por estes resultados eventuais. A maneira como foi decidida conta também. E influencia estes resultados.

Foi uma decisão inesperada, Mesmo para seus principais benefíciados; os exportadores. Os recursos para este subsídio não constam claramente do orçamento federal. Além de contrariar toda a estratégia anterior de estímulo à exportação. Esta maneira de decidir tem consequências tanto para o combate à inflação quanto para a redemocratização deste País.

Na verdade trata-se de decisão secreta e imprevisível. Exceto para poucos privilegiados, é uma decisão que veio do escuro. Não foi precedida de diálogo nem com os imediatamente interessados. Muito menos revela sobre que dados e experiência se fundamentaria. É decisão de casulismo econômico.

A curto prazo, possivelmente acalmará alguns setores. Refrescará alguns Indices. A médio prazo, no entanto, reforça a insegurança de todos em face da política econômica. Ninguém poupa ou investe hoje, se
não pode prever um mínimo do amanhã. A imprevisibilidade da política econômica transforma todos, banqueiros e empresários, trabalhadores e consumidores, não em aliados do governo no combate à inflação. Transforma todos nos vigias atemorizados dos decretos, bons ou maus, mas sempre imprevisíveis.

Esta imprevisibilidade se volta até contra os mais fiéis aliados do regime. Dificilmente se pode dizer que a inflação foi melhor combatida ou o regime ficou mais consolidado com a imprevisita maxidesvalorização, com uma legislação de imposto de renda modificada sempre à posteriori, ou com a abortada tentativa de estatização do Senac e Senal. Ao contrário. O resultado principal foi obrigar o empresário a, antes de chegar à fábrica e ao banco, passar sempre pelo gabinete oficial. Pois a pressão de hoje pode evitar o decreto de amanhã.

O casulismo econômico é mais grave do que o casulismo político. É mais espasmódico e mais solitário. Nem um nem outro, no entanto, reduz a inflação ou redemocratiza este Pals. Tanto a democracia quanto a inflação dispensam o casulismo do imprevisto. Exigem o diálogo aberto, franco e informado de todos para se estabelecer um previsível consensual e democrático.

A imprevisibilidade da política oficial tem transformado o governo no bombeiro que, paradoxalmente, ao tentar apagar o fogo da inflação ateia mais.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 12/04/1981_