Começou o segundo tempo da deíesa do Nordeste. Pouco a pouco os políticos transformam seus discursos e compromissos em projetos e programas a serem submetidos a Tancredo Neves. A semana começou com Marcos Freire propondo a criação do Ministério Extraordinário para o Norte e Nordeste, complementado por uma série de medidas, como, por exemplo, a implementação de uma reforma agrária via estatuto da terra. E terminou com os governadores do PDS, aprovando, em reunião da Sudene, um outro elenco de medidas pronordestinos. Pretendem a aplicação de 30% dos recursos dos Ministérios e 50% dos recursos do Finsocial no Nordeste. E mais. Defendem o fortalecimento da Sudene, via Conselho Deliberativo e o Congresso Nacional. O conselho, do qual os governadores fazem parte, voltaria a definir os planos de desenvolvimento, aprovados não mais pela Seplan ou Pela presidência da República, mas por estes e pelo Congresso Nacional também.

Passar da palavra à ação é sempre momento arriscado. A convergência em volta da palavra não raro se traduz em divergência em volta da ação. E a divergência, se não for bem administrada, pode se transformar em conflito. No caso, as diferenças ainda são sutis, mas já existem. Os governadores são contra o Ministério Extraordinário. Freire o defende como mecanismo capaz de fazer com que o Nordeste volte a ter acesso direto à Presidência da República. Os governadores defendem uma
participação importante e constante do Congresso Nacional. Fácil de perceber. Os governadores aí controlam bancadas de deputados federais que serão vitais para o futuro liberal. É muito importante para a sustentação parlamentar do próprio governo Tancredo Neves.

O desafio que desde já se coloca diante do futuro Presidente é o de viabilizar um novo desenvolvimento para a região, sem que esta tarefa esfacele a Aliança Democrática no futuro. Tarefa difícil mas não impossível. A questão da reformulação institucional é importante. A distribuição dos cargos, também; mas, mais importante será a definição dos programas econômicos e sociais específicos. Pois a maior crítica que se faz à Sudene hoje não é a da falta de dinheiro. Dinheiro houve e muito. Não foi e aplicado como a sociedade esperava. Não criou os empregos de que a região necessitava. Não apoiou os pequenos e médios produtores e empresários. Foram recursos concentradores e não distribuidores da riqueza da região. Por trás da eventual disputa pelo modelo institucional da defesa do Nordeste, está latente a eventual disputa pelo novo modelo de desenvolvimento econômico e social. A definição deste é tarefa presidencial e preliminar.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 16/12/1984_