ficialmente, os caminhos e estilos do presidente Fiqueiredo são razoavelmente opostos aos de seu vice. Aureliano Chaves. O vice, quando ganhou, perdeu quer dizer, dentro do diagnóstico formula-in por Golbery do (outo e Silva, quando Aureliano ganhou a confiança da Nação no exercício interino da Presidência, perdeu o apoio de Figueiredo para ser seu candidato nesta sucessão. Já o presidente Figueiredo está na iminência de ganhar, mesmo se seu candidato Paulo Maluf perder nas eleições de 15 de janeiro. Podera perder a eleição, mas terá dado uma contribuição decisiva para fazer deste País uma democracia. Perdeu na eleição e ganha na democracia. Como jurou, aliás.

Neste sentido, se as manobras prorrogatórias que quando em vez sopram do Planalto tiverem sucesso ganharem -, o presidente Figueiredo perderá. Perderá porque mesmo obtendo mais alguns meses no poder, terá rompido regra vital do próprio sistema: não se prorroga mandato de presidente. Mais ainda, terá lançado dúvidas na Nação, e na comunidade internacional também, sobre a sinceridade de seu projeto de abertura política. Que aparecerá como uma estratégia de conservação camuflada do autoritarismo, e não como mudança democrática do poder.

As reiteradas declarações do Presidente contra modificações nas regras do jogo, entendendo-se
também como sendo declarações contra modificações nas interpretações das regras do jogo, tranquilizam a Nação. E acabam por isolar tais manobras como iniciativa de bolsões radicais dentro até mesmo do Planalto. Estes bolsões, hoje está claro, não são apenas bolsões militares como disse o presidente Geisel. São bolsões de autoridades econômicas e políticas também. Por exemplo, o revanchismo e as retaliações mesquinhas, cortando verbas contra os governos que apóiam Tancredo Neves — antes Ceará e agora Pernambuco — atingem os governadores, os prefeitos, os cidadãos e a própria credibilidade do projeto de abertura do presidente Figueiredo. E são originários de autoridades econômicas radicais.

Neste momento histórico, importa é considerar que o objetivo da abertura não pode ser reduzido a entregar a Presidência a um dos integrantes do círculo restrito do Planalto. Mesmo porque Maluf nunca fez parte desse círculo. O objetivo maior da abertura é assegurar uma transição pacífica, sem revanchismos, e sem radicalismos. Ora, esta é justamente a maior força de Tancredo Neves.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 15/11/1984_