Mas, afinal de contas, qual é mesmo a função de uma administração municipal? Vez por outra, esta questão latente no dia-a-dia de qualquer prefeitura aflora com vigor. Como agora em torno do destino a ser dado a uma excepcional área de cerca de oito hectares localizada bem no centro do Recife

Na década de 70, a Prefeitura desapropriou (sem pagar a todos) dezenas de proprietários para ah construir miraholante estacionamento periférico Gastaram se bilhões Deu em nada Tudo perdido A cidade não precisava do estacionamento Repeliu a utopia da tecnocracia autoritária. Transformou-se então de estacionamento em pista de corrida de karts Outro desastre 0 taxímetro do desperdício dos recursos públicos continuou funcionando E como a administração municipal não sabia o que fazer com a área, é natural que outros passassem a saber. Um grupo empresarial se propôs então, a, legítima e legalmente, construir a um shopping-center, com projeto empresarialmente consistente 0 que provocou resistências imediatas, por parte de políticos do PMDB e moradores do Coque – favela vizinha de 30 mil cidadãos. Alegam que sendo a última área do Recife, deveria ser ecologica e socialmente preservada. Que existem outros locais para shopping-centers E que uma política de desenvolvimento urbano de médio prazo dificilmente
te sacrificaria esta área. Guardaria para uso comum.

Independentemente do destino a ser dado à área, parece claro o seguinte: primeiro, a Prefeitura usou do poder de desapropriar para um projeto inviável. Segundo, dificilmente os cofres públicos serão ressarcidos pelos investimentos improdutivos e subutilização da área. Terceiro, a administração municipal não conseguiu em anos formular projeto de uso socialmente abrangente, a ponto de ter agora que defender o shopping-center: quase como mal menor.

A Prefeitura pretende submeter o projeto do shopping à Câmara dos Vereadores. Se a intenção é prestigiar e dar poder ao Legislativo Municipal, tudo bem. Deveria inclusive submeter vários projetos de uso da área, formulados pela tecnocracia municipal, e não apenas um. Para que houvesse escolha real. Se busca porém apenas “legitimar” o shopping, a medida é desnecessária. Porque dificilmente deixaria de revelar questão crucial: a necessidade de uma política de desenvolvimento urbano e social, de médio prazo, por parte da administração municipal.

(Joaquim Falcão)

_06/11/1984_