Durante algum tempo, ainda na década de setenta, este país discutiu a questão da distribuição de renda. Depois, nesta década de oitenta, discutiu-se outra questão: o desemprego. Agora, a questão é outra: é a da fome, porque não há emprego, que não gera renda. Nesta escala, de uma economia trágica, a questão da fome é a última: pois é a questão da vida e da morte. Qualquer que seja o presidente no próximo ano, esta será questão prioritária. As soluções não poderão ser encontradas nos manuais clássicos de economia: gerar poupança que crie investimentos, que produza empregos, que gere renda, para se comprar comida. Não há tempo. Há fome.

Estudo recente feito pelo economista Renato Duarte é muito claro. Indica, por exemplo, que a produção de alimentos do Nordeste para os nordestinos é absolutamente insuficiente. A contar com as próprias forças, o nordestino não teria mais do que 120 gramas de arroz, 40 gramas de feijão, 6 gramas de carne bovina e menos do que uma xicarazinha de café de leite para as três refeições do dia. Quer dizer, se considerássemos uma distribuição equilitativa dos alimentos, que inexiste, dificilmente o nordestino sobreviveria. Estes dados são de 1980. Daí até hoje, houve a seca. A situação se
agravou. () déficit quantitativo de alimentos significa que o nordestino dispõe de apenas cerca de 50% das proteínas de que necessita e de 70 por cento das calorias. Ou seja, se a fome não mata, deforma. Enfraquece fisicamente. Desrói as potencialidades intelectuais.

A saída para este déficit alimentar tem sido duas. Por um lado, importar alimentos do Sul do País. Importar arroz, feijão, batata, cebola, laranja, carne etc. E a outra, conviver com a fome e o déficit qualitativo da alimentação disponível. Ambas as soluções são insatisfatórias. Quando mais não seja porque adia soluções necessárias, que são, como aponta Renato Duarte: a prevenção contra fatores climáticos e a reforma das condições institucionais. Aquelas exigindo o aumento da capacidade de captação e armazenamento da água e o uso de corretivos dos solos. Estas exigindo a reorganização fundiária e a reavaliação das políticas governmentais, em direção ao cooperativismo, à assistência rural e à nova política de preços agrícolas.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 11/10/1984_