Em recente programa de televisão, Paulo Maluf não hesitou em afirmar que os banqueiros apoiavam Tancredo Neves. Não se referiu especificamente a Olavo Setúbal. Referiu-se aos banqueiros em geral. Com isto, Maluf pretende manter sua liderança junto aos pequenos e médios comerciantes de São Paulo, da Associação Comercial sobretudo, que há muito têm seus lucros transferidos para os balanços dos bancos através dos juros excessivos.
Cómo todos os brasileiros, os banqueiros estão também atentos à sucessão. Há interesses em jogo. Parcela expressiva de seus líderes já manifestou apoio a Tancredo. Apoio que não se baseia apenas em amizades pessoais, ou compromissos estaduais. Duas importantes quêstões provavelmente podem influenciar a posição dos banqueiros.
A primeira é a pressão dos banqueiros internacionais, credores do Brasil, para que o governo federal abra o sistema bancário comercial ao capital estrangeiro. Permita aos bancos estrangeiros ampliar suas operações e abrir filiais para negócios diretamente com o público. Esta é a questão problemática, até então tida como de segurança nacional. A
candidatura Tancredo Neves, parece oferecer maiores garantias de que o sistema bancário continuará nacional. Sobretudo quando se considera a presença de Roberto Campos, francamente a favor do capital estrangeiro, na equipe de Paulo Maluf.
A segunda é a manutenção da paz social. Para que o sistema financeiro continue a funcionar é indispensável que o País não entre em convulsões sociais, ainda que setorializadas. Mas é também indispensável que a política econômica e o governo federal em si tenham credibilidade e legitimidade junto aos cidadãos. Uma crescente insatisfação social pode levar os mutuários de todas as espécies a simplesmente não pagar suas dívidas. O exemplo do BNH está a para quem quiser aprender. A inadimplência coletiva coloca em risco qualquer sistema financeiro. Neste sentido também a candidatura Tancredo Neves parece reunir as maiores probabilidades para a restauração da credibilidade da política econômica.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 04/10/1984_