Na medida em que a candidatura Tancredo Neves se consolida e Paulo Maluf não consegue ir além de um constrangido apoio oficial, é natural que se intensifiquem as preocupações e os debates sobre o que acontecerá depois de_15 de março.

No que se refere, por exemplo, à estrutura e composição do Ministério, a ser confirmada a vitória, o deputado Fernando Lira (PMDB-PE) busca inspiração no próprio governo Tancredo Neves em Minas Gerais. Lá vários deputados foram convidados para ocupar secretarias. E Tancredo não hesitou em aumentar o número de secretários. Quer dizer, é provável que um grande número de ministros saia do Congresso Nacional. Lira prevê inclusive um parlamentarismo de fato, ainda que não de direito, posto que a convivência produtiva entre Executivo e Legislativo deverá marcar o próximo regime.

Uma reestruturação do Ministério parece também ser de alta probabilidade. A inexistência de um superministro, e o esvaziamento da Seplan é um dos pontos consensuais. A criação de novos ministérios, como o de Ciência, Tecnologia e Informática e eventualmente o Ministério da Cultura, também está na pauta das discussões. Na medida em que um maior
número de ministérios signifique apenas a reorganização e não necessariamente a ampliação da máquina burocrática, facilitará a composição política entre os múltiplos grupos que apóiam Tancredo.

No que se réfere a políticas substantivas, a preocupação é grande. A continuar a atual orientação da Seplan, a inflação estará no pique, as reservas poupadas como sacrifício de todos terão diminulido, dificultando as novas negociações com o FMI, e as demandas sociais crescerão livremente. O senador Henrique Cardoso (PMDB-SP) defendeu em Pernambuco que o futuro governo eleja como meta principal a erradicação da miséria. Quer dizer, um programa mínimo de alimentação popular, saúde, educação e emprego, de modo a, em pouco tempo, retirar grande parte da população da situação de desespero de hoje. Se o governo Tancredo Neves conseguir sucesso no combate à miséria, certamente ocupará lugar de destaque na história brasileira.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 02/10/1984_