Se existe uma lição que se pode facilmente tirar do governo Figueiredo, a lição é a seguinte: manda no governo quem manda na economia. Evidentemente, na futura Presidência, os ministros da área econômica terão menos poder. Quanto mais não seja, porque Tanciedo Neves ou Paulo Maluf conhecem a área melhor que Figueiredo. Sabem o que querem. Dificilmente assinarão um cheque em branco a favor da Seplan. Um cheque sem fundos como este que a Nação se vê agora dirigada a pagar.

Mas evidentemente, também, mesmo com poderes amortecidos, os ministros da área econômica continuarão (como em todo o mundo) a ser a principal influência da administração pública. Por isso mesmo aumenta, cada ha, a eventual assessoria econômica de Tan-redo Neves. Se não a assessoria de fato escolhida pelo candidato, pelo menos a assessora vinculada aos diversos grupos que integram. Aliança Democrática. O que de resto é rural, pois política hoje se faz através de danças em torno de princípios gerais, mas sobretudo em torno de acordos sobre projetos específicos. Sobretudo projetos econômicos.

São quatro os principais núcleos de assessoria existentes. Dois vinculados ao PMDB, dois vinculados à Frente Liberal. Inicialmente existe o núcleo comandado por Cristóvão Buarque, da Universidade de Brasília, indicado a Tancredo via deputado Fernando Lira. Este núcleo
produziu um sério documento sobre o Nordeste, que, no entanto, desagradou importantes setores do empresarião local. Um segundo núcleo do PMDB é o da Unicamp em São Paulo, formado por críticos contundentes da política delfiniana e que há anos assessora a direção do PMDB.

Pela Frente Liberal, partiu primeiro o núcleo fortemente vinculado ao moderno empresariado paulista, cujos líderes principais são Olavo Setúbal e Abílio Diniz. A proeminência deste grupo nos últimos dias estimulou de imediato o surgimento de um grupo liberal menos paulista. Daí Aureliano Chaves indicar como encarregado de igual tarefa Hélio Beltrão e Karlos Rischibieter. A estes núcleos acresca-se o nome de Celso Furtado, a quem, segundo informações correntes, doutor Tancredo Neves ouve com precisa atenção.

Para que os projetos de qualquer dos núcleos se transformem em realidade é necessário, porém, que o doutor Tancredo Neves ganhe a Presidência, e se existe uma lição que se pode facilmente tirar da sucessão de Figueiredo, a lição é a seguinte: ganha a convenção (ou o Colégio) quem tem voto indireto, e não apenas quem tem o melhor projeto ou o maior apoio popular.

(Joaquim Falcão)

_05/08/1984_