Antes de partir para Porto Alegre, o governador Roberto Magalhães expressou com a franqueza habitual seu pensamento sobre a sucessão da Presidência. Comparou o presidente Figueiredo a Pôncio Pilatos. Afirmou: “Eu acho que a esta altura é um direito do Presidente lavar as mãos. Pilatos também lavou as mãos e se deu bem, tanto que está no Credo. É uma decisão que devemos respeitar.”
Estas comparações históricas são sempre problemáticas. Pilatos, como governador de Roma na Judéia, lavou as mãos por dois motivos principais, entre outros. Primeiro para continuar no poder. E continuou. Foi uma fórmula mágica para não desagradar os romanos que representava, nem os judeus que dominava. Neste ponto, o lavar as mãos de hoje pode conduzir às mesmas consequências do lavar de ontem: a prorrogação no poder. Mas ao lavar as mãos, Pilatos transferiu a decisão ao povo judeu, que votou em eleições diretas. Em vez de condenarem Barrabás, condenaram Jesus Cristo. A comparação aqui é mais problemática ainda. Pois lavar as mãos de Figueiredo implica justamente no contrário: implica impedir ao povo o direito de votar diretamente. O que é uma consequência extremamente perversa, sobretudo por já sabermos que o povo brasileiro não seria injusto. Provavelmente escolheria certo: escolheria a favor da democracia.
A frase, porém, com maior intensidade bíblica
de Roberto Magalhães foi outra. Ao comentar a aceleração do processo sucessório, o governador vaticinou: “Vai chegar o momento em que ninguém mais vai enganar ninguém.” Ou seja, o jogo palaciano das informações e contra-informações; as vozes a não dizer e os porta-vozes a desmentir; as candidaturas que não são, a impedir as que serão, todos estes resquícios do autoritário regime fechado estão por acabar. Esgota-se aceleradamente a capacidade de enganar os cidadãos.
E neste sentido que, com realismo, o grupo pró-diretas do PDS, ao constatar o ar desalentador e desleixado dos partidários de Andreazza, insiste na tríplice renúncia: Andreazza, Aureliano e Maciel. Para tornar possível um outro candidato. Um candidato que poderá inclusive ser um destes três. Mas que tenha possibilidades reais de combater Paulo Maluf dentro do próprio PDS. Para vencer. Pois como alertou outro dia um arguto político das oposições de Pernambuco, dentro do PDS Paulo Maluf é o único çe joga com dados da realidade.
Jogar com dados da realidade na hora em que ninguém mais vai enganar ninguém marcará esta nova etapa do processo sucessório.
(Joaquim Falcão)
_07/06/1984_