As chuvas continuam a cair no Nordeste. O sertão ainda não virou mar. Mas já está todo verde. Uma beleza. E hoje, o que há muito não era: uma das regiões mais bonitas do Brasil. A seca, como castigo climático, já passou. Como castigo econômico, ainda não. Pois como declarou um dos flagelados: “Seca para mim é eu chegar dentro de minha casa e não ter o que comer.” A incerteza de ter o que comer continua. Por motivos simples: a chuva sozinha não consegue acabar com a miséria estrutural e amplamente majoritária do Nordeste.

E hora dos governos agirem. Passou a emergência, a crise aguda. O tempo é propício para as decisões de médio e longo prazo. Uma radiografia sócio-econômica do flagelado acabada de ser divulgada por Clóvis Cavalcanti, da Fundação Joaquim Nabuco. Pode servir de orientação aos governos.

Os flagelados, quando podem, ficam no sertão. Gostam de lá. Mesmo diante da seca implacável, só 32,5% pensavam em migrar. E destes, apenas 27,5%, queriam migrar definitivamente. O destino mais frequente é a Região Sul-Sudeste (63,6%). Sendo que o paraíbeno é quem mais quer ir embora. O pernambucano e o censure, os que mais querem ficar.

Mas para ficar, é necessário se criar condições para superar o flagelo da pobreza. Pobreza,
com seca ou sem seca. Cerca de 74% dos flagelados são analfabetos. Cerca de 15% da população economicamente ativa da região são integrados por menores entre 10 e 14 anos. Cerca de 80% dos flagelados não têm vínculo com a propriedade rural. E a minoria mini-fundária tem terras com uma média de 50 hectares por propriedade.

Hoje, depois de cerca de 5 anos de seca, sem terra, sem os animais domésticos, sem semente e sem instrução, o sertanejo tem pelo menos água. E a vontade de ficar. Pois como disse outro flagelado: “A vida em São Paulo sobre o ganho é muito boa. Sobre a convivência é muito ruim.” É hora dos governos agirem. Uma ação a favor do Nordeste, de São Paulo, do País. A Sudene, industrializante de resultados longe dos esperados, poderia muito bem voltar-se para uma reforma agrária decididamente pacífica e solidária. Onde em vez de Programas de Emergência e distribuição espasmódica de sementes, o acesso à terra é o acesso à instrução se constituíssem nos objetivos maiores.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 05/06/1984_