Nas últimas semanas cresceu em Pernambuco um protesto social difuso contra a situação econômica do Estado, e contra o governo em particular. Para se ter uma idéia, não faz muito, em Carpin, os trabalhadores rurais se reuniram para protestar contra a violência e a impunidade que prevalecem no campo. Mesmo assim, não faz três dias, um administrador de engenho assassinou um delegado sindical em São Lourenço da Mata. No Recife, apesar da passeata contra as tarifas dos ônibus, as passagens sobem hoje. Motoristas e trocadores desempregados ocuparam praticamente as principais esquinas da cidade, solicitando ajuda da população para comida e lançando seu protesto. Nos morros de Casa Amarela, mais uma vez centenas de pessoas ficaram desabrigadas por causa das chuvas. Perderam seus barracos e protestaram junto ao Palácio das Princesas por esta tragédia que se repete quase anualmente. Em Peixinhos, bairro do Recife, moradores protestam contra a instalação de uma estação de tratamento de lixo urbano.

Estas mobilizações diferem muito da mobilização pelas diretas. São protestos econômicos, e não reivindicações políticas. Mobilizam apenas os grupos diretamente interessados, e não toda a população. Mas diferem, sobretudo, porque nem o governo nem mesmo as oposições têm qualquer controle sobre elas. E o que é pior: não raro se transformam em campos férteis para a radicalização social e política.

Ao contrário da mobilização pelas diretas, que mesmo pacífica e ordeira terminou nas medidas de emergência e na atuação do Exército nacional, estes protestos difusos nem exigem a atuação do governo federal, nem do Exército. Em contrapartida, exigem a atuação do governo do Estado e da Polícia estadual. É neste ponto, que a mobilização pelas diretas-já e este protesto difuso se encontram.

Ou o governo federal, o Planalto, os militares e o próprio PDS se dispõem a efetivamente atender às reivindicações políticas dos brasileiros (diretas-já ou uma negociação satisfatória) ou a derrota da emenda Dante de Oliveira terá tido apenas uma consequência principal: redistribuir dentro do governo a responsabilidade pela repressão popular. Que não será em Brasília nem com base nas medidas de emergência, mas através dos governadores e de suas polícias estaduais. Não espanta pois que os mais interessados no sucesso da negociação sejam os próprios governadores do PMDB, PDT e PDS. A não haver um acordo entre governo e oposições, a crescente deterioração da economia fará crescer também a níveis insuportáveis e desagregadores este protesto econômico difuso.

(Joaquim Falcão)

_03/05/1984_