Na terça-feira, as estações de televisão veicularam para dezenas de milhões de brasileiros dois fatos: a visita do Presidente ao Marrocos e o comício do Rio de Janeiro. Mostraram o Presidente assistindo a uma dança de marroquinas. Tomando chá, sendo-lhe oferecidas lâmaras e conversando protocolarmente com o rei Hassam. Mostraram também centenas de milhares de cariocas e diversas lideranças brasileiras defendendo eleições diretas-já. Em resumo, a televisão mostrou a ausência do governo num momento politicamente grave para o País. É difícil imaginar que Marrocos tenha importância econômica ou geopolítica justificadora de tanta ausência. No mesmo dia, o presidente em exercício, Aureliano Chaves compareceu ao Planalto. Mas, mal pôde governar. A maioria das autoridades do primeiro escalão estava ausente. O Planalto era uma ausência só. Agora, anuncia-se que deputados e senadores do PDS se ausentarão do Congresso na votação da emenda das diretas. Quer dizer, a ausência parece ser a tática política privilegiada do regime.

No Marrocos, o ministro Rubem Ludwig, sempre ponderado, afirmou: “Nem sempre é conveniente se raciocinar apenas com anseios, uma vez que é preciso se raciocinar com a realidade. Nos últimos anos tem acontecido no Brasil, e no Exterior, manifestações emocionais que acabaram por se transformar em algo
extremamente frustrante.” Tem razão, o ministro. Não interessa a ninguém, militar ou civil, governo ou oposição, a ação política com base apenas nas emoções. Na medida, porém, que raciocinar com a realidade não é necessariamente uma exclusividade do governo (e nem das oposições), a dificuldade é saber, quem está se afastando da realidade. E quem não está. E difícil imaginar que se possa enfrentar, lidar, negociar e conviver com a realidade, através da ausência.

A tática da ausência pode ser importante na estratégia da manutenção do poder. Mas, sem dúvidas, radicaliza posições. Pois, contrapartida da ausência frequente, é a exacerbação crescente do anseio. A ausência transforma-se na face negativa do anseio. Corre-se o risco de substituir o diálogo racional pelo desencontro de emoções mútuas.

Raciocinar com realidades exige reconhecer uma realidade: o poderio do regime. Mas exige também reconhecer outra realidade: o anseio popular expresso pacífica e constitucionalmente por eleições diretas já. Sem este duplo reconhecimento, a frustração é de todos. O Brasil sai perdendo

(Joaquim Falcão)

_Recife, 15/04/1984_