Nas últimas semanas, as chuvas voltaram ao Nordeste. Chove no agreste e sertão, em todos os Estados. É cedo para comemorar o fim da seca. Como esclarece o geógrafo Mário Lacerda de Melo, a seca tem três aspectos: quantidade, generalização e regularidade. Está chovendo em quantidade suficiente para afastar o fantasma da sede, que vindo do sertão rondava o egrcreste, Fortaleza e Recife. E para assegurar o início do plantio da safra deste ano. A generalização indica que a área da chuva é suficientemente ampla. Começou no sertão, veio pelo agreste e, em Pernambuco, chega à zona da Mata e litoral. O problema crucial é o da regularidade. Um temporal, uma cheia ou uma tromba d’água, sozinhos, pouco ajudam. Que chova menos, mas por mais tempo. Se as chuvas entrarem pelo inverno, haverá boas razões para otimismo.

A normalização da vida destas regiões depende em grande parte agora da redefinição do apoio governamental. É importante que não faltem sementes para o plantão. Que as frentes de emergências não sejam desativadas de sopelão. Que os flagelados tenham meios de refazerem suas lavouras, suas casas, e comprar as “miunças”, as aves e animais de pequeno e médio porte que lhes garantam a sobrevivência. A fragilidade econômica dos camponeses, par-
celeiros, arrendatários e mini-proprietários não os permite trilhar o caminho da volta sozinhos. Necessitam de ajuda.

A grande questão, porém, para o Nordeste, e o Brasil, é outra. E saber se, com a volta das chuvas, tudo será como antes. Reaparecerá uma região sem sede mortal e sem flagelo quinquenial. Mas ainda com pobreza absoluta, analfabetismo crônico, mortalidade infantil corriqueira, repartida por grandes latifúndios com produtividade subsidiada pelo trabalhador e pelo governo. Perseguindo o caminho da pecuarização, substituindo áreas de plantão por pastos para gado. Liberando quantidades formidáveis de mão-de-obra camponesa para o emprego inexistente nas cidades.

Há menos de um mês, os bispos católicos do Nordeste, aqui reunidos, voltaram a defender uma reforma agrária pacífica. Pois se a seca é a tragédia conjuntural, a questão da terra é a deformação estrutural. Estes cinco amargos anos de seca deveriam ao menos ensinar ao Brasil que já é tempo de enfrentar a questão agrária, sem ódio e sem medo. E sem mímicas também.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 10/04/1984_