Pernambuco realizou seu segundo comício pelas diretas. O primeiro foi em Olinda. O segundo, esta semana, no Recife. Organizado pelo presidente do PMDB, Marcos Freire. Estima-se que entre 60 e 80 mil pessoas compareceram. Transcorreu com ordem e no horário. Contou inclusive com o apoio da Prefeitura do Recife, do PDS. A multidão era em sua grande maioria de jovens. Tanto das classes trabalhadores, quanto da classe média. Na verdade, a participação pacífica e ordeira da classe média na política é dado novo fundamental produzido pela campanha das diretas. A comparação com a participação política da classe média nas vésperas de 64 é inevitável. E a pergunta parece ser: o que faz a classe média, em geral tão alienada, ir para as ruas e para os comícios?
Em pelo menos dois aspectos, 1984 assemelha se a 1964. O primeiro é a incompetência do governo em resolver os problemas econômicos. Antes, como agora, (em proporções e com características distintas, é claro) o Pals atravessava séria crise econômica. Antes, como agora, o governo federal não conseguia cumprir o que reiteradamente prometia aos eleitores controlar a inflação e retomar o desenvolvimento. Antes, o fracasso em controlar a crise econômica implicou a tática presidencial de sucessiva troca de ministros. Hoje, não. O fracasso significa o isolamento dos ministros econômicos e o agravamento da briga interna entre os ministros. A classe média, atingida pela crise econômica descontrolada, tem em
geral alguma paciência política e financeira, alguma poupança, inclusive, para aguentar. Quando, porém, perde confiança quer na tática de mudança de ministros de Jango, quer na de manutenção de ministros de Figueiredo, a classe média fica sem saída. E entra na política.
O outro aspecto é o da explícita utilização dos recursos públicos para fins incompatíveis com a própria existência da classe média. Sendo mais explícito: em 64, a ingerência dos sindicatos nas decisões do governo (ingerência presente até na própria Presidência) ameaçou a classe média. Que, com ou sem razão, temendo uma República “sindicalista”, foi para as ruas. Ou, pelo menos, deu seu apoio silencioso à Revolução de 64. Em 84, a corrupção exerce a mesma ameaça. Existe um nível “normal” de pequenos ilícitos que a classe média suporta. Mas a repetida onda de escândalos financeiros com os recursos públicos e, pior, sem eficiente e clara reação por parte do governo federal, ameaça a própria existência da classe média. É mais ou menos o que dizia ontem, aqui no Recife, um micro-empresário: “Não tem sentido eu e meus filhos nos matarmos de trabalhar, se cada dia devemos mais. Vendemos menos. E lá por cima, a fraude é impune”. Quer dizer: se a classe média não pode mais ascender social e economicamente, antes de descer, passa na política. E vai aos comícios.
(Joaquim Falcão)
_08/04/1984_