A pergunta é dupla. Quer saber, ao mesmo tempo, se os políticos modernos e competitivos do PDS vieram ou não para ficar. E se, por consequência, o próprio PDS veio para ficar. Para respondê-la, proponho uma informação, uma observação e um paradoxo.
A informação é a seguinte. Pesquisa (“Eleições de 1982”, conduzida por pesquisadores e instituições filiadas à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais) realizada no Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo (Capital), Campinas e Belo Horizonte, nas eleições de 1982, ajudam a entender melhor a questão da identificação partidária. Enquanto 33,9% deste eleitorado identifica-se expressamente com o PMDB, apenas 20,6% identifica-se com o PDS. Porcentual inferior até aos que não se identificaram com qualquer dos partidos: 25,5%.
Dos que se identificam com o PDS, 59,5% afirmaram que na hora do voto, a figura do candidato pesa mais do que a do partido (40,5%). É mais importante. O mesmo afirma-ram os eleitores do PDT e PTB. E os do PMDB também. Enquanto 55,5% dos peemedebistas privilegiam a figura do candidato, apenas 44,5% privilegiam o partido. A exceção é o PT. Apenas 40% dos eleitores do PT consideram o candidato mais importante que o partido e vice-versa: 60% consideram o partido mais importante do que o candidato, evidenciando que a estratégia do PT encontra apoio nos seus eleitores. Estratégia que aposta na consolidação partidária de meio prazo, com base na identificação ideológica consciente e consistente. Em detrimento da consolidação efêmera com base em candidaturas circunstanciais, o que, no entanto, não quer dizer que o PT
veio para ficar mais do que o PDS. E aqui vai nossa observação. Ela diz respeito justamente à tradição dos partidos de vida curta.
Se é verdade que cada partido desenvolve graus diferenciados de identificação com seu eleitorado, consolidando-se diversificadamente, a tradição mostra que os esforços unipartidários não são suficientes para assegurar a sobrevida de ninguém, sendo mais explícito. O que a história político republicana revela é que, com a exceção recente do PC, quem tem vida curta não é este ou aquele partido.
Todos em seu conjunto têm vida curta. Melhor dizendo, quem tem vida curta é o próprio quadro partidário. Os partidos aparecem e desaparecem juntos, em geral. Foi assim com os partidos estaduais antes do Estado Novo. Foi assim com o PSD, PTB, UDN, etc. Foi assim com Arena e MDB. Poderá, ou não, ser assim com o atual quadro partidário. O surgimento e desaparecimento dos partidos paréce mais depender das relações entre o quadro partidário e as crises dos regimes políticos, do que dos esforços de sobrevida de um partido isoladamente. O quadro partidário muda, quando muda o regime político. Quando há uma ruptura? Uma substituição do regime.
Justamente porque não houve substituição do regime de 64 pôde o PDS ser quase uma Arena com outro nome, e o PMDB um ex-MDB. Ainda que formalmente sejam novos partidos, do ponto de vista eleitoral, pelo menos no que se refere aos Estados do Nordeste, o PDS sucede a Arena e o PMDB ao MDB. Neste sentido, em princípio pela tradição, o PDS veio para ficar, tanto quanto veio para ficar o PMDB, por exemplo.
O paradoxo diz respeito, então, às relações entre os novos políticos modernos e competitivos do PDS e o próprio PDS. Estes novos líderes não participaram, em sua maioria, da fase mais repressiva do atual regime. E mais. Não se sentem responsáveis por ela, nem se acreditam herdeiros da repressão política. Como também não se julgam comprometidos com alguns dos postulados fundamentais da cúpula partidária de um partido do governo e do regime, como é o PDS. Não se julgam comprometidos, por exemplo, com a política econômica que massacra o eleitor. Nem com a submissão da soberania nacional ao FMI. Estes novos líderes são líderes quase dilacerados, divididos: ou são fiéis aos eleitores ou são fiéis a um partido que, por enquanto, defende posições contra a imensa maioria dos eleitores brasileiros, sem os quais não se pode ser político competitivo no jogo democrático-eleitoral. Este o paradoxo. São políticos que se identificam com um eleitorado, que não se identificam com o regime, com o qual seu partido se identifica.
Uma das evidências deste parado-xo é a distinção que fazem entre o ideal e o real. Entre a teoria e a prática. Entre o discurso e a ação. Defendem teoricamente, nos discursos, o ideal das eleições diretas, mas córrem o risco de na realidade prática votarem contra eleições diretas-já. Quer dizer: ou de vota-rem contra, ou de se absterem.
A resolução deste paradoxo pode estar na resposta a outra pergunta. Será que estes políticos modernos e competitivos vieram para ficar… no PDS?
[ASSINATURA NÃO DETECTADA]
_31/03/1984_