Ultimamente compara-se o Brasil apenas com a Argentina. Mas outras comparações poderiam ajudar na procura das saídas da atual crise política. Outros países poderiam servir. Como Portugal, por exemplo. Aliás, a coincidência não poderia ser maior. A emenda Dante de Oliveira vai ser votada no dia 25 de abril. Parece até de propósito. Pois 25 de abril é a data fundamental de Portugal: 25 de abril de 1975 inicia a moderna democracia portuguesa. Em Portugal, tudo aconteceu antes ou depois do 25 de abril. É o divisor de águas. Antes era a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano: o passado que se exauriu. Depois, é o futuro com a democracia. Com a liberdade e parlamentarismo. Em pelo menos dois pontos, a comparação pode ser ilustrativa.

O primeiro ponto é muito simples. Basicamente, quem assumiu o poder logo depois do 25 de abril foi o Partido Socialista; à frente, seu líder, Mário Soares. Um ex-exilado. Na época de Salazar era tido como um comunista perigoso, que retiraria Portugal do mundo ocidental e aniquilaria os políticos, empresários e militares do antigo regime. Tudo falso. Soares não é comunista, não retirou Portugal do mundo ocidental, não fuzilou, nem foi injusto com ninguém do antigo regime, militar ou civil. Ironicamente, hoje, acusa-se Soares de ser
muito vinculado aos Estados Unidos. Agora mesmo, Washington decidiu sediar nova estação de rastreamento de satélites em Portugal: indispensável para a segurança da Europa Ocidental. As acusações salazaristas contra Soares não eram verdadeiras. Tinham um só objetivo, legitimar, pelo engano, o continuismo da ditadura que se esvaia. Não se trata, é claro, de defender Leonel Brizola, ou Miguel Arraes. Mas o socialismo de Mário Soares é tão internacionalmente independente quanto o deses dois e de vários outros líderes brasileiros.

O segundo ponto também é simples. Depois de muita turbulência, Portugal, a partir do 25 de abril, forjou o regime parlamentar democrático que hoje temos, onde convivem civis e militares, no mítu o respeito. O Brasil terá que passar por turbulências para forjar seu novo regime político. Para poder escapar do simplismo que identifica autoritarismo com inflação e militarismo. E democratização com volta dos civis e eficiência da economia. Resta saber se as turbulências necessitam ser violentas ou se uma decisão do Congresso, no dia 25, será suficiente.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 27/03/1984_