Quer sejam eleições diretas ou indiretas, os candidatos terão que se posicionar diante de questão inevitável. Pois interfere com interesses múltiplos e poderosos. A questão da desestatização da economia. Infelizmente nem os atuais candidatos conseguiram passar de declarações generalizantes e intenções imprecisas. Nem a sociedade brasileira avançou muito nesta questão, desde a década de setenta, quando da palavra de ordem de Eugênio Gudin contra as estatais. Palavra de ordem que Paulo Maluf quer retomar, investindo contra as mordomias de Brasília. Quando todo mundo já percebeu que o combate às mordomias é apenas uma atitude demagógica diante de um desafio sério. E atitude economicamente desimportante, embora politicamente rendosa.

Evidência que o problema não foi pensado com a profundidade que merece é a ausência até hoje de um diagnóstico sobre as causas da estatização brasileira. Sobre as causas deste paradoxo irônico: a Revolução de 64 para defender a livre iniciativa e a propriedade privada, acabou, quem diria, estatizando como nunca nossa economia. As suas causas são múltiplas. E todas visíveis a olho nu. Muitas são sutis e se escondem justamente sob o manto diáfano dos interesses privados.

O advogado paulista, Beno Suchodolski, um dos principais advogados de empresas do País, por exemplo, acaba de identificar mais uma das
causas. Até então despercebida por economistas, autoridades e políticos de oposição: a própria política de empréstimos dos bancos internacionais, principais credores do Brasil. Para os banqueiros internacionais é mais seguro emprestar ao governo, suas estatais, Prefeituras e Estados, do que emprestar às empresas privadas. Onde o risco é infinitamente maior. Pois no primeiro caso, a garantia econômica é antes de tudo um compromisso político da soberania nacional. Enquanto no segundo, a garantia depende do risco do negócio propriamente dito.

Néstes anos todos, quando houve excesso de dólares no mercado internacional, os banqueiros substituíram uma mais rigorosa análise econômica dos empréstimos ao Brasil pela segurança política advinda do aval do tesouro nacional, em suas múltiplas formas. Com isto, financiaram, sem riscos, investimentos improdutivos como Transamazônica, Itaipu e o programa nuclear. Emprestar aos governos e às estatais por um lado substituiu o risco negocial inerente aos empréstimos pelo compromisso político do governo brasileiro. Por outro, de quebra, estimulou uma discreta, silenciosa mais vigorosa estatização da economia.

(Joaquim Falcão)

_Recife, 08/03/1984_