O governador do Ceará, Gonzaga da Mota, não esconde preocupação e angústia quando, em visitas ao interior do Ceará, repetidamente é procurado por flagelados que lhe suplicam: “Governador, não nos deixe morrer.” Igual preocupação e angústia experimentou esta semana o deputado José Jorge de Vasconcelos do PDS-PE, quando, visitando o sertão encontrou uma senhora a se lemantar que não dormira a noite toda. Seus três filhos choraram todo o tempo. Queriam água. Estavam com sede. E ela não tinha água para lhes dar. A seca continua e se agrava. Ou melhor, o sofrimento e a morte provocados pela seca se agravam.
A seca é inevitável. É um fenômeno climático-geográfico. O que porém é inevitável é o sofrimento que ela provoca. A morte que alastra. Evitar que seus cidadãos morram de sede deveria ser a prioridade primeira de qualquer governo. No Brasil, não o é. No mesmo momento em que os governadores do PDS e os políticos de oposição, os flagelados e as lideranças civis e religiosas alertam exaustivamente o governo federal sobre a tragédia da seca, recursos federais são cruelmente destinados a outros fins. Recursos billionários vão para o Projeto Jari, recursos billionários saem impunemente do Banco Central para financeiras fraudulentas, recursos billionários saem do Finor da Sudene para serem aplicados em pequeno grupo de projetos agropecuários exterminadores da mão-de obra.
Em outras palavras, recursos existem. O
que inexiste é a vontade política de aplicá-los para matar a sede de quem precisa. De quem precisa fisicamente, Como também existe desenvolvimento social. Dois economistas, Leonardo Guimarães e Abelardo Baltar, mostram claramente em suas pesquisas que nas duas últimas décadas o Nordeste cresceu tanto quanto o Brasil. O produto regional expandiu-se a uma taxa média anual acima de 7 por cento, cerca de três vezes mais que o crescimento da população. O que inexiste é um desenvolvimento socialmente justo. A seca não revela subdesenvolvimento. A seca revela desenvolvimento.
Neste sentido explica-se porque os presidiências que mais se julgam a favor do Nordeeste são contra as eleições diretas. O voto indireto não tem sede. Não sofre do flagelo da seca.
E na política, a contrapartida do improdimento e desperdiçador latifúndio que submete o sertão e o agreste. O voto direto de um grande número de nordestinos está morrendo de sede. Os presidenciáveis indiretos estão temerosos desta sede. Quanto mais não seja, porque o eleitor com sede não deixará de formular diante das promessas de que o Nordeste será prioridade nacional a partir de 1985, pergunta singela: “Seu presidenciável: por que não faz logo hoje o que promete para amanhã?”
(Joaquim Falcão)
_Recife, 01/03/1984_