Circulou em Brasília notícia não confirmada de que os ministros militares preparariam, para esta semana, nota oficial contra as eleições diretas. Esta interferência política dos militares na sucessão já foi afastada, neste final de semana, pelo ministro Délio Matos. Pois, por um lado representaria uma pressão política explícita no direito constitucional dos congressistas de mudarem ou não a Constituição. Direito que lhes é exclusivo. Por outro, representaria na prática o apoio direto a Malufe Andreazza.
Há muito, esta discussão direta e indireta deixou de ser discussão teórica sobre a reforma do modelo político-institucional do Brasil. Ser a favor das indiretas hoje, militar ou civil, significa ser a favor de Maluf ou Andreazza. Não foi por menos, por exemplo, que os partidários de Andreazza saíram eufóricos da reunião dos presidenciáveis. Pois, consolidando as indiretas, estar-se-ia consolidando a candidatura do ministro do Interior. Logo depois a euforia passou para os malufistas. Quando perceberam que o Presidente fora obrigado a dizer que não tem candidato. Nem mesmo Andreazza. Que perdera, assim, chance de ouro. Neste sentido, qualquer manifestação dos militares tem este ônus. Ou se revelar explicitamente a favor de Maluf e Andreazza. Ou propor à Nação uma fórmula de escolher o presidente que ofereça igual chance a todos os candidatos. A Aureliano, inclusive. Aos candidatos da
oposição, inclusive. Esta fórmula, ao que consta, ainda não foi encontrada.
Este apoio direto a Andreazza e Maluf, através das indiretas, tem tentado ser camuflado. Alegou-se interferência dos comunistas na campanha. Andreazza foi com sede ao pote. Maluf também. Declararam de alto e bom som os respectivos anticomunismos. Como declaram também os manifestantes pró-diretas do Rio de Janeiro. Alegou-se riscos para a segurança de Brasília. Esvaziou-se logo a marcha sobre Brasília. Quer dizer, a Nação rejeita a correlação entre pró-diretas e pró comunismo. Ou pró-diretas e pró-subversão. Esta correlação só interessa a Maluf e Andreazza.
Por isto mesmo, 48 horas depois da reunião, cinquenta mil pessoas passearam no Rio de Janeiro pró-diretas. Trinja mil forma o comício em Belém. Antônio Ermírio, líder dos empresários nacionais, calmamente declarou-se pródietas mais uma vez. Aureliano e Maciel continuaram a favor das diretas. Tudo sem revanchismo. Sem querer jogar ninguém contra ninguém. Em suma, se já é difícil enquadrar os presidenciáveis, mais difícil parece ser enquadrar a Nação
(Joaquim Falcão)
_Recife, 19/02/1984_