Na mesma semana em que Ronald Reagan enviava o orçamento dos Estados Unidos para apreciação pelo Congresso norte-americano, o prefeito do Recife, Joaquim Francisco, enviava mensagem propondo aumento do funcionalismo municipal para apreciação pela Câmara dos Vereadores do Recife. Aparentemente Ronald Reagan nada tem a ver com Joaquim Francisco. Nem os congressistas americanos com os vereadores recifenses. Mas tem. E muito. Vejamos.

Ó orçamento americano prevê um déficit público de cerca de 180 bilhões de dólares. Lá, como aqui, o governo vai tentar cobrir esse rombo de duas maneiras: emitindo dinheiro e tomando empréstimos junto aos bancos privados internacionais. Ora, uma demanda de dinheiro dessa magnitude provavelmente elevará o custo do dinheiro. Elevará os juros internacionais. Aumentará os juros para todos os tomadores de dinheiro em Nova York, Londres ou Chicago. Para o Brasil, inclusive; ou seja, aumentará a dívida brasileira. Como tem aumentado nestes anos todos.

Quanto mais o Brasil deve, mais a política econômica do Governo Federal se submete ao FMI. Mais a dona Ana Maria Jul quer recessão. Quanto mais recessão, dona Ana Maria e
salários dos funcionários estatais: federais, estaduais e municipais. Os funcionários recifentes, inclusive. Para sobrar receita pública aqui, poder pagar os juros lá fora.

Foi justamente o que aconteceu. O prefeito Joaquim Francisco enviou proposta de aumentar 30% agora, e mais 35% em maio. Equivalente ao que o governo do Estado propôs para seu
funcionalismo. O que, se por um lado estabelece a semestralidade do aumento, o que é bom, por outro achata violentamente o já insuficiente salário, o que é mau. No período de um ano, para uma inflação de cerca de 200%, o funcionário municipal terá recebido cerca de 135%. Uma perda real de mais de 30%. O funcionário comerá pior. Tratará precariamente da saúde de sua família, seus filhos terão educação insuficiente.

Para onde vai essa perda de 30% do salário do funcionário do Recife? A resposta é fácil. Vai pagar os juros dos empréstimos internacionais, que aumentaram para que o governo norte americano cubra seu déficit público. E de que consta o déficit público dos Estados Unidos? Lá, como aqui, boa parte refere-se a excessivas despesas de pessoal: refere-se aos salários de seus funcionários. Em outras palavras: o funcionalismo recifense está contribuindo para que o funcionalismo norte-americano continue passando bem. Do bom e do melhor.

Tudo isso pode parecer estória em quadrinhos, ou discurso na base do yankee go home. Mas não é. É simples bom senso econômico. Com um agravante. Um dos motivos pelos quais o prefeito Joaquim Francisco não aumentou mais os funcionários é que a Prefeitura do Recife está endividada em dólares. Donde, ou paga os juros, ou aumenta o funcionalismo a níveis reais. No caso, optou por pagar os juros.

(Joaquim Falcão)

_12/02/1984_