Na primeira semana de fevereiro, dom Hélder Camara completará 75 anos. Haverá grande celebração religiosa. O importante porém é a sua sucessão. Dom Hélder foi a Roma, almoçou com João Paulo 2º, que o recebeu com a fraternidade e respeito de sempre. Dom Hélder comunicou que gostaria de se aposentar, e, porque solicitado, indicou nomes para sucedê-lo. O Papa ficou de considerá-los, mas as chances destas indicações são poucas. A atual política do Vaticano prefirirá na Arquidiocese de Olinda e Recife um bispo conservador ou moderado, nunca um progressista.
Este aspecto transforma esta sucessão em assunto que interessa a todos, católicos ou não, pois os grupos políticos na cúpula da Igreja distinguem-se sobretudo pelas concepções diferenciadas de cada um sobre as relações temporais da Igreja. Sobre as relações entre a Igreja e sociedade, no caso, sobre as relações — progressistas, moderadas ou conservadoras — entre Igreja, governo e povo na América Latina, e no Brasil, em especial. Daí porque a cúpula da Igreja é susceptível de algumas avaliações, se não errôneas, pelos menos altamente discutíveis. Vejamos.
O atual surto conservador (nas dez últimas sucessões no Brasil, os conservadores venceram) deve-se sobretudo à oposição à Teologia da Libertação. A quem alguns conservadores radicales culpam pela situação da Nicarágua e El Salvador. O que, no mínimo, é superestimar a influência de aluna, não é radicale, provoca-se a desconhe
cer séculos de opressão sócio-econômica. Quando aplicada ao Brasil, esta avaliação iguala Brasil à Nicarágua e El Salvador, o que é discutível. Não há comparação, é claro, entre a atuação dos religiosos brasileiros partidários da Teologia da Libertação e a dos da América Central. Aqui prevalece a não-violência, o reformismo social e a defesa das instituições democráticas. Sem impedir que os progressistas se impacientem com a fome e desemprego que atinge grande parte da população brasileira.
Esta mesma linha de avaliação, senão errônea pelo menos discutível, das relações entre Igreja, governo e povo no Brasil, já levou o Vaticano a cometer uma injustiça. Dom Hélder encerra sua missão sem ser cardeal. Para a maioria dos brasileiros, dom Hélder não foi cardeal nas décadas de 60 e 70 devido ao receio do Vaticano em ferir susceptibilidades do governo brasileiro. Hoje a história evidencia que as críticas de dom Hélder ao regime (injustiça social e autoritarismo político) foram quase sempre muito procedentes, enquanto que as críticas do governo a dom Hélder (agitador comunista), improcedentes. Mais uma vez, nesta sucessão, o Vaticano corre o risco de avaliações discutíveis sobre a Igreja, as relações com o governo e povo no Brasil.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 19/01/1984_