As conclusões do Inquérito comandado pelo tenente coronel WaldecI Lopes sobre a fuga do ex-major Ferreira, deixou o governador Roberto Magalhães aliviado. E Pernambuco também. Nestes últimos anos, Inquéritos envolvendo militares e corrupção oficial foram em geral inconclusos. Sepultaram, na marra, as dúvidas dos cidadãos. Confundiram, muito mais do que esclareceram. Como os do Riocentro, polonetas, e Baumgarten. Em nome da solidariedade corporativa ou para não agravar e ira dos por-terosos, estes inquéritos instauraram a insegurança coletiva e o descrédito das instituições. Já o Inquérito da PM foi conclusivo. Constatou o que pernambucanos e a imprensa já suspeitavam; o envolvimento direto da alta cúpula da Polícia Militar de Pernambuco.
Em nome da solidariedade corporativa, a PM local estava pagando preço curo. O preço do descrédito junto a população, a imprensa, as autoridades políticas e à Nação. Agora abre-se a possibilidade da PM restaurar sua credibilidade como instituição necessária à segurança de-mocrática dos cidadãos.
O alívio do governador justifica-se. Estava em jogo sua capacidade de controlar e comandar a área de segurança do Estado. A primeira tentativa falhara, Seu primeiro secretário de Segurança logo renunclou, Alegou motivos de saúde, Mas ninguém desconhece as pressões e reação que internamente inviabilizaram sua autoridade. O governador manteve então a estrutura de segurança herdada dos tempos de
Moura Cavaleanti. Estrutura fortemente abalada agora com as conclusões do Inquérito.
Ao alívio do governador, correspondc o desconforto do vice-governador Gustavo Krause. Um dos principals implicados, o tenente R. Freitas, era membro de seu gabinete. Inclusive quando Krause foi prefelto do Recife criou-se um cargo especial de assessor militar para absorver o tenente Freitas. Que foi também do gabinete de Moura Cavalcanti. E até há pouco era uma das principais influências na área de segurança do Estado de Pernambuco. Ninguém, é óbvio, é responsável por atos de outrém. Aliás, logo depois da fuga, Krause provavelmente conhecedor do eventual envolvimento de seu ex-assessor, levou sua demissão a Magalhães. Que aceitou no ato. Krause desde então tem-se mantido recondilamente discreto. Há de se esperar, é verdade, o julgamento definitivo a nível do Executivo e do Judiciário das conclusões deste inquérito. No entanto, na medida em que tenha pretensões de médio prazo na política eleitoral pernambucana, está discrição tática será crescentemente insuficiente. Numa democracia, os eleitores preferem posições explícitas. Vão querer saber o que pensa e como aço Guatavo Krause diante de episódios, para todos lamentáveis, como este.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 05/01/1984_