O discurso do Pres. Figueiredo teve duas consequências principais. À primeira é mais imediata e perceptível: alterou os rumos da sucessão presidencial. A segunda é de médio prazo e menos visível. Nem por isto, menos importante. Ao contrário, Historicamente é a consequência mais importante: alterou os rumos do regime militar implantado desde 1964.
Esta según, consequencia fica nítida quando focalizamos os dois principais rumos que se abrem hoje ao regime. Ou o regime caminha em acrescente deterioração econômica e política. Algo como a via argentina, sem Malvinas. Ou o regime administra a sua própria evolução. Ou seja, o seu próprio final. Tipo abertura, lenta, gradual e segura. Desde mirados dos anos setenta que as autoridades militares optaram por este rumo, o regime administra o fim do próprio regime. Por motivos simples. As eleições de 74 e 76 já indicavam uma crescente maré de votos oposicionistas. A inflação, a corrupção, o desemprego e a desnacionalização naufragaram o modelo econômico e a segurança nacional.
Ao contrário do que possam crer, crise de
legitimidade política não é invencionice de
advogados liberals e políticos socialistas. Crise
de legitimidade é perda de autoridade, dificult
dades de governar e crescente ineficácia das
políticas públicas. Foi o que aconteceu. E antes
do regime deteriorar, Gelsel-Golbery optaram
pela administração de sua própria evolução. Os casuísmos eleitorais ainda conseguiram segurar um governo de Estado aqui, e uma Prefeitura acola, favoráveis ao regime. Mas não conseguiram restaurar a credibilidade do governo. Nem a eficácia das políticas econômicas. Com ou sem FMI.
Em seu discurso, o Presidente parece abandonar o rumo da abertura lenta, gradual e segura. Instaura-se o reino do salve-se quem puder. O barco parece estar a deri 1. “E estarrecedor” diz o senador Lulz Vianna Filho (PDS-BA). Não se sabe em que praia aportaremos. Ou a praia das eleifões direlas e da institucionalização democrática. Ou a praia da delerioração, da corrupção, da má política ou dos golpes de força.
O inflistro Leitão de Abreu afirma que foi decisão pessoal do Presidente. Quer dizer, Figueiredo usou da prerrogativa máxima dos regimes autoritários. Onde a concentração do poder e o centralismo decisório acabam transformando decisões pessoais em decisões de governo. Ou mesmo decisões de regime. Onde corre-se o risco de confundir capacidade e sentimentos pessoais com rumos de regime.
(Joaquim Falcão)
_Recife, 03/01/1984_