Os empresários do açúcar em Pernambuco pretendiam um aumento do preço da cana de 45 por cento. O Instituto do Açúcar e do Álcool, órgão federal competente para o setor, propôs 30 por cento. A Seplan mandou o ministro Camilo Pena conceder apenas 23 por cento. Tudo não passaria de normal disputa entre empresários e governo, se este episódio não fosse esclarecedor de como estão sendo tomadas as decisões de política econômica hoje no Brasil.
A insatisfação dos empresários foi dupla. Insatisfeitos com o novo preço e insatisfeitos com a maneira como a decisão foi tomada. Para se ter uma idéia, no mesmo período a inflação subiu 36,2 por cento, o dólar 84 por cento, a ORTN 37,3 por cento, o INPC 33,8 por cento, a energia elétrica 43,7 por cento e o açúcar apenas 23 por cento. Não é preciso conhecer a economia para detectar, nesta valsa sem ritmo dos índices, quais as prioridades da política econômica. E para reconhecer que a ordem do presidente Flgueiredo, para que se distribua igualmente o ônus da crise econômica, não é obedecida pela Seplan.
O banqueiro com o crédito em dólar, a estatal da energia e os investidores de ORTN ganham exatamente o que os trabalhadores, com o INPC, e os industrials, com o preço da cana, perdem. Acresce que os aumentos do preço da cana, tendo em vista as diferentes épocas de colheita entre São Paulo e Pernambuco, acabam fazendo com que para uma mesma colheita São Paulo tenha dois aumentos e Pernambuco apenas um.
Mas insatisfação maior é com o caráter autocrático e pouco técnico com que o governo decide estes aumentos. Neste episódio, o secretário especial para Abastecimento e Preços deixou no meio a reunião, com o representante dos empresários de Pernambuco e o deputado federal que o acompanhava. Obrigados a levar suas reivindicações ao Planalto diretamente. Quando a Seplan e o MIC anunciam a decisão, não dão explicação alguma.
Não se instaura a racionalidade econômica com decisões autocráticas e sem fundamentação clara. Desta maneira instaura-se, sim, o que o respetado presidente das Associações Comercials Brasileiras, Rui Barreto, já explicitou: instaura-se o isolamento do governo.
J. F.