Na obscura década de setenta, para a maioria dos cientistas brasileiros faltaram condições mínimas para o exercício da profissão. É que o conhecimento científico só avança por um duplo movimento: pela descoberta da verdade científica, e logo em seguida pela possibilidade de superar esta verdade. Superação esta que não pode ser obtida sem que haja críticas, discordâncias, debates, pluralidade de caminhos e liberdade Institucional. Sem que haja democracia, enfim.
Não foi por menos que os cientistas brasileiros transformaram a reunião anual da SBPC em foco da resistência democrática. A sobrevivência do cientista brasileiro cruzava, como cruza ainda, com a redemocratização do regime e do Pals. Com a abertura política um espaço mais livre para exercer suas atividades foi conquistado. Espaço para buscar verdades. Daí porque a tarefa de hoje é a dedisseminar a verdade científica, torná-la propriedade de qualquer cidadão.
Daí a iniciativa da SBPC em criar a revista “Ciência Hoje”, publicação bimestral de sucesso crescente, tirando já cerca de 40 mil exemplares, e voltada para a divulgação científica.
Hoje, a simples divulgação de verdades científicas tem um impacto político evidente. É que uma das características da crise do atual regime é a separação entre a verdade do governo e a verdade da maioria da população brasileira. Entre a verdade que justifica o programa nuclear do governo e a verdade que mostra que há sobra de energia no Páls. Entre a verdade que faz o governo prever um superávit nas exportações de 6 bilhões de dólares e a verdade da análise econômica responsável que mostra a alta improbabilidade desta previsão. Entre a verdade que faz o Ministério da Agricultura afirmar que a geada e a seca não interferirão na produção agrícola e o quotidiano de lavouras arrasadas e preços agrícolas disparados.
A verdade científica necessariamente se situa neste contexto. E opta. A SBPC cumpre seu papel, Divulga a verdade científica, que em reglme democrático não deve ser propriedade de ninguém, Nem mesmo dos cientistas, Mas de todos, inclusive do governo.
A esperança é que assim o País escape a este novo simplismo: de um lado os otimistas oficiales o de outro os pessimistas oposicionistas. Este simplismo é apenas um artifício autoritário para encerrar o debate, desqualificando-se o debatedor. A democracia não passa por aí. Nem a verdade científica.
J. F.