Se dom Hélder entrar na sala da Auditoria Militar no Recife, e sentar-se no banco das testemunhas no processo contra o padre Reginaldo, tudo já terá sido decidido. Nem a honra do Supremo, nem os versos do pároco, nem o desempenho social da Igreja estarão mais em julgamento. Muito menos a condenação, ou não, do acusado terá a menor importância. Deste processo restará uma imagem principal. A da separação entre de um lado o regime, os juízes militares e a Lei de Segurança Nacional, e de outro a Igreja, seus pastores e seus pobres. Esta imagem aparentemente simplista é politicamente complexa.

Por um lado, ela obscurece as angústias sociais das falas do presidente Figueiredo, os esforços neopopulistas de Marco Maciel e os programas mais sociais do governo. O PDS não terá se aproximado do nordestino aplicando leis de exceção. Nilo Coelho, Moura Cavalcanti e Gustavo Krause terão maiores dificuldades em suas pretensões ao governo de Pernambuco.

Por outro lado, ela obscurece as divergências internas da Igreja, entre progressistas e conservadores, políticos e apolíticos. Queira ou não João Paulo 2.º, recele ou não o Planalto, a Igreja terá tido seu peso político acrescido. Menos pelas ações de padre Reginaldo, de dom Hélder ou da Comissão Justiça e Paz. E mais pela necessidade de reafirmar sua mensagem social diante do Pais, inclusive diante da Lei de Segurança Nacional. Lej que, paradoxalmente, ao pretender despolitizar o cidadão, acaba sempre por radicalizar a política.

Se dom Hélder se sentar no banco das testemunhas, o processo de padre Reginaldo terá deixado de ser preocupação apenas do sistema de segurança, ou de dom Ivo e Abi Ackel. Terá assumido uma dimensão internacional. A televisão e a imprensa de todo o mundo estarão lá. Para todos os países ficará mais nítida a separação entre Igreja e regime. Que no caso nem poderá justificar o processo como combate ao comunismo. Ninguém ignora que a pregação cristã, pacifista e terceiromundista de dom Hélder é também anticomunista.

O regime não estará melhor protegido e mais fortalecido condenando o padre Reginaldo. Talvez fique claro, com este processo, que a atual lática “legalista”, de intimidação pela lei dificilmente estimula a negociação, o diálogo, a abertura pelo centro. A intimidação poderá ser uma consequência secundária, mas é sempre setorial. A consequência global, a imagem final, será a nitidez da separação entre regime e Igreja. O País não terá avançado na solução da seca do Nordeste, da inflação nacional ou da redemocratização de suas instituições sociais. Na imagem final estará de um lado o regime: as leis de exceção e a intimidação pela lei. De outro estará a Igreja, sua mensagem e seus-pobres. Que, por sinal, constituem a maioria do eleitorado nacional.

 

J.F.