Uma cidade sem fila nem carnaval

Artigo publicado no Blog do Noblat, em 18.02.2015

Imagine o metrô passar na hora certa, você entrar, ter lugar, sentar, sem “empurra empurra”, nem fila. Você não precisa procurar taxi, porque o taxi está esperando por você. Onde você esteja. Nem fila de pessoas, nem de automóveis. No centro da cidade, na hora de maior movimento, não tem tráfego. Tudo flui.

Não tem fila no aeroporto, nem fila de passaporte. Nem fila de bancos. Aliás, se vê poucos bancos. Eles não têm a centralidade na vida cotidiana das pessoas que tem no Brasil.

Esta cidade é Viena, na Áustria. Qual é o segredo? Afinal, ela está numa Europa que cada dia fica menor diante do mundo: da China, dos Estados Unidos, da Ásia e da própria América Latina. Uma Europa ameaçada, não somente pelo racismo e terrorismo, mas por cerca de 4 trilhões de dólares que a China tem em caixa, fora os árabes, prontos para comprá-la toda. Já estão comprando. Sobretudo imóveis. A China será aqui. Das empresas, ao patrimônio histórico e cultural.

Evidentemente que não existe um segredo. Mas muitos, e todos difíceis. Dois, no entanto, nos pareceram decisivos. Primeiro, a decisão estratégica feita por seu parque industrial. Sua política industrial. Há décadas resolveu não competir na ponta final da cadeia de produção. Resolveu investir em tecnologia de fornecedores de segunda ou terceira linha para as indústrias. Em vez de fabricar automóveis ou aviões, fabricar peças e tecnologias para estas indústrias, por exemplo. Bingo!

Esta cidade deve ter um nível de desemprego por volta de 4%. Menos ainda que no Brasil.

Segundo, pela história do império austro-húngaro, a cidade é monumental em seu passado e rotineira em seu presente. Cabe na cidade pelo menos cinco vezes mais habitantes do que tem. Donde, cidade limpa, não violenta, calma, sem competição por serviços urbanos generosos. Nesta generosidade cabem, é logico, alguns imigrantes nos serviços mais primários.

Vi dois símbolos do Brasil em Viena. Uma lojinha de sucos de frutas, inclusive tropicais, tipo as de Ipanema, a primeira com certeza. Talvez dê certo. E um stand de sandálias havaianas. Foi tudo.

Vi também umas serpentinas decorando uma vitrine de loja. O resto era o silêncio ensurdecedor da eficiência rica. Às vezes desconfio que muita eficiência exige alguma tristeza e silêncio. Bom mesmo seria uma cidade sem fila e com carnaval.