Chega de partidos sem espinha dorsal

Artigo publicado no Blog do Noblat, em 04.02.2015

“Governador, o senhor que participou da redemocratização de 45 e participa agora da redemocratização de 84, por que, nestes momentos, os partidos não lideraram? Por que é a sociedade civil, as ruas (na época lideradas pela OAB, SBPC, CNBB, artistas e intelectuais) que comandam os processos de democratização? O presidente do comitê que conduz o movimento das diretas é o presidente da OAB, Mário Sérgio Duarte Garcia”.

Perguntei, uma vez, no início de 1984, nós dois sozinhos no carro, no Recife, ao então Governador de Minas Gerais, Tancredo Neves.

Tancredo iniciava sua campanha vitoriosa para as eleições indiretas. Olhou-me e abanou as duas mãos com desdém. Dizendo com elas uma espécie de “deixa isto para lá”.

“Partidos, ora… Partidos…”, resmungou. E completou dizendo: “Estou preocupado, meu filho, é que são seis horas da tarde e, neste momento, o Aureliano Chaves está se reunindo com empresários na Associação Comercial de Minas Gerais”.

Aureliano ainda era seu competidor pelos votos de Minas Gerais. Tancredo se preocupava com as fontes reais de poder, mais do que com partidos. Com líderes, associações, empresários, movimentos da sociedade civil.

Hoje diríamos o mesmo.

Chega de partidos que ficam em pé para se beneficiar de tempo de televisão, fundo partidário, e cargos no governo. No primeiro, segundo, terceiro ou quarto escalão. São partidos tipo vírus oportunistas. Partidos de ocasião. “Meu voto, pelo seu reino”, diriam como Ricardo III.

Sem espinha dorsal. Com projetos e programas anódinos. Cheios de platitudes políticas pseudamente democráticas. Partidos que contrabandeiam hoje, o voto de ontem. Partidos de clientelismos a posteriori.

Precisamos é de melhores partidos, e não de mais partidos. Partidos que não substituam sua identidade programática por um bom plano de marketing eleitoral. Chega de partidos eleitorais. Precisa-se partidos que sejam mobilizados pelos legítimos e múltiplos interesses dos grupos e classe sociais. E não o contrário. Mobilizados por suas burocracias internas.