O Brasil cabe dentro de um táxi de carnaval

- E o Lula?

– Foi o único político que fez alguma coisa pelo Nordeste. Dizem que ele está roubando uma casa, não sei. Vi na televisão.
Mas, se quiser, por aqui se elege outra vez.
Para pegá-lo precisam de uma britadeira. Mas não importa.

– E Dilma?

– Dilma é quem destruiu tudo.

– Mas ela rouba?

– Não, rouba não. Mas destruiu.
Aqui no táxi cliente nenhum fuma maconha não. Não deixo.

– E cocaína?

– Cocaína sim.

– Por que?

– Porque cocaína não deixa cheiro. Não pega na roupa. O policial não pode me acusar de nada.
Mas pior mesmo é bêbado. Bêbado fica logo rico. Quer mandar em todo o mundo. Entra aqui. Sai ali. Diz que pegou muita mulher no dia. Pegou nada. Está apenas bêbado. Na hora de pagar nem tem dinheiro.
Para bebida, futebol e carnaval não tem esta história de crise não. Estou trabalhando desde cinco da manha. Vou até às duas. Está muito bom.

– Futebol é igual a carnaval?

– Não, não. No carnaval passageiro é homem e mulher e brigam por ciúmes. No futebol são dois homens. Brigam por causa de gol.
Mulher está traindo mais que homem. Ficam piscando para mim, pelo retrovisor. O homem nem vê. Eu fico quieto. Não quero confusão não.
O que está crescendo mesmo é esta tal de chicungunha. Levo muita gente para o hospital. Moço, velho e criança. Todo mundo com muita dor.

– Já foi assaltado?

– Em dez anos, nunca. Só uma vez. Um rapaz, dezoito anos, levou minha carteira de cima do banco. Só vi quando cheguei em casa. Devolveram os documentos. O dinheiro, não.
Rico pega táxi pelo tele taxi. Pago 400 reais por mês só disto. Pobre pega  na rua mesmo.

Passado o carnaval, vai ser aquela desgraceira outra vez. Taxista parado no ponto conversando com taxista. Esperando. Todo mundo mentindo.

*artigo publicado no Blog do Noblat, em 10.02.2016.