Honestidade não é privilégio de nacionalidades. Nem a corrupção

Sobre a Suíça: “Procuradores iniciaram uma ofensiva ao banco privado HSBC” . Por ter o banco ajudado clientes a esconder do fisco dinheiro de milhares clientes, inclusive possivelmente oriundo de terrorismo, tráfico de drogas e de armamentos . O escândalo do swissleaks. (Financial Times, sábado, 21 de fevereiro)

Sobre os Estados Unidos: “Citi reduz os valores recebidos pelo CEO depois de contratempos” . Porque o banco não passou no teste de stress do Federal Reserve, pagou bilhões de dólares em multas e foi revelada uma fraude de 400 milhões de dólares na subsidiária mexicana Banamex, o Citibank reduziu os valores pagos a seu presidente. (Financial Times, sexta, 20 de fevereiro)

Sobre a Espanha: “A Fazenda multou a Caixa de Madrid por uso ilegal da conta dos cartões de crédito” . Diretores faziam uso pessoal de cartões de crédito corporativos, o “escândalo das tarjetas negras”. 36% dos pagamentos dos cartões de conselheiros da Caixa entre 2004 e 2006 não estavam relacionado com as atividades do organismo. Os cartões eram usados inclusive para pagar roupas, viagens particulares, e mesmo casas noturnas e adjacências. (El País, sábado, dia 21 de fevereiro)

Sobre a China: Professor He Jiahong “combatendo a corrupção “. Sobre a corrupção disseminada, o professor de direito diz que em algumas partes do país e em algumas indústrias, quase todos os funcionários são corruptos. De acordo com a Comissão Central para Inspeção Disciplinar, o número de oficiais punidos no ano passado aumentou 30%, passando para 232.000. Isto inclui um numero sem precedentes de tigres como o ex chefe da Segurança Interna da China Zhou Yongkang. (Financial Times, sábado, 21 de fevereiro)

Sobre a Grécia:“Foco da Justiça”. Por que a União Europeia ficou cega diante da corrupção na Grécia? A maioria dos poucos casos investigados envolveu companhias europeias como Siemens, Daimler a Deustche Bahn acusadas de pagar propina às partes gregas. Se a Grécia fosse combater vigorosamente a corrução muitas companhias europeias de primeira linha na bolsa iriam para as manchetes. Gregory Maniatis, senior adviser das Nações Unidas e da Open Sociecty. (New York Times, sábado, 21 de fevereiro)

Sobre a França: “O Ministério Público pediu dois anos de prisão para a neta da costureira”. A neta da famosa costureira Nina Ricci é suspeita de fraude fiscal, lavagem de dinheiro, e organização fraudulenta de falência. Além de estar na famosa Lista Falciani do HSBC. (Le Monde, sábado, dia 21 de fevereiro)

Sobre a Holanda: “Produtor de chips investigando hacking americano e inglês” . As agências de inteligência britânica e americana teriam roubado código de segurança de milhões de chips da empresa Gemalto, a maior empresa do mundo de Sim Cards, que justamente garante a segurança dos celulares, passaportes e cartões de banco. (New York Times, sábado, 21 de fevereiro).

Sobre a Itália: “Berlusconi acusado de comprar o silêncio de testemunhas incômodas”. Entre os vários processos a que respondeu e responde, Berlusconi está sendo acusado de comprar testemunha em processo sobre prostituição de menores e abuso de poder. (Le Monde, sábado, 21 e fevereiro)

Estas notícias são todas do último sábado, 21 de fevereiro de 2015. Publicadas em jornais respeitados do mundo: El País da Espanha, Financial Times da Inglaterra, Le Monde da França e The International New York Times, dos Estados Unidos. Todas versam sobre corrupção, lavagem de dinheiro, fraudes fiscais em diversas esferas: pública e privada.

Abrangem países capitalistas e socialistas. Da Europa, das Américas e da Ásia. Países líderes.

Não foi um dia excepcionalmente corrupto. Ao contrário. No sábado, os jornais em geral dão maior cobertura a cultura, esportes, entretenimento e menos a governos e negócios do que nos dias de semana.

Deste noticiário, que é rotina no mundo, pode-se tirar três conclusões pelo menos.

Primeiro, os mecanismos de prevenção e repressão da corrupção e ilegalidades na globalização não têm sido adequados para combatê-la e vencê-la. Ou ao menos diminuí-la. As instituições, mesmo quando funcionam, são insuficientes. Ou seja, ou se inventam novas formas institucionais e processos de investigação e punições mais eficientes, ou a curva corruptora será ascendente em todo o mundo.

Os mercados vão estourar não pela especulação desenfreada mas pela bolha corruptora de múltiplas fraudes. A corrupção compensa, sobretudo quando se reduz a punição a multas e condenações em dinheiro.

Segundo, a mídia global está atenta, é ela própria investigativa dentro dos meios limitados que tem. Mas mídia sozinha não combate a corrupção. Estamos chegando a um ponto onde a transparência da mídia, uma principal arma de combate, é também insuficiente. Donde a transparência ou produz resultados compensadores, ou vai apenas banalizar o mal.

Terceiro, sendo a corrupção fenômeno global, associado a governos e mercados, antes de se propor combater a corrupção brasileira com estímulos a maior presença de empresas internacionais (como alguns defendem aqui no Brasil para o caso da Lava-Jato) é prudente termos clara a dimensão do contágio global do problema.

Corrupção não é ato individual. É sempre uma relação entre empresas e governos. E quando em grande escala, é relação entre empresas e governos nacionais de um lado e empresas e governos estrangeiros de outro. No mundo global de hoje, a honestidade não é privilégio de nacionalidades. Nem a corrupção.

*artigo publicado no site Brasil Post em 24.02.2015